Segunda-feira, Junho 29, 2009

Em Stand By por Tempo Inderteminado

Devido a inumeras condições decidi, enquanto mantenedor principal, parar as postagens no blog por tempo inderteminado para reformulações.
Peço a colaboração dos outros autores para que não postem nada por enquanto.
Aos visitantes, o blog segue vivo, então sejam bem vindos sempre
Abraços!

Quarta-feira, Junho 17, 2009

"I Concurso Literário Contos Grotescos"




O site Contos Grotescos (http://www.contsodeterror.com.br/) está promovendo o “I Concurso Literário ‘Contos Grotescos’ – Prêmio Edgar Allan Pöe”.


O concurso é dedicado a escolher obras de Terror, Horror, Suspense e afins inéditas para a elaboração de um antologia.


A Inscrição é GRATUITA e há prêmios para os primeiros colocados


Mais informações no link abaixo




Sorte aos participantes!


Sábado, Junho 13, 2009

O Retrato Oval




Conto clássico do mestre Poe (e um dos meus favoritos)


Por Edgar Allan Poe


O castelo em que o meu criado se tinha empenhado em entrar pela força, de preferência a deixar-me passar a noite ao relento, gravemente ferido como estava, era um desses edifícios com um misto de soturnidade e de grandeza que durante tanto tempo se ergueram nos Apeninos, não menos na realidade do que na imaginação da senhora Radcliffe. Tudo dava a entender que tinha sido abandonado recentemente. Instalamo-nos num dos compartimentos mais pequenos e menos suntuosamente mobiliados, situado num remoto torreão do edifício. A decoração era rica, porém estragada e vetusta. Das paredes pendiam colgaduras e diversos e multiformes troféus heráldicos, misturados com um desusado número de pinturas modernas, muito alegres, em molduras de ricos arabescos doirados. Por esses quadros que pendiam das paredes - não só nas suas superfícies principais como nos muitos recessos que a arquitetura bizarra tornara necessários - , por esses quadros, digo, senti despertar grande interesse, possivelmente por virtude do meu delírio incipiente; de modo que ordenei a Pedro que fechasse os maciços postigos do quarto, pois que já era noite; que acendesse os bicos de um alto candelabro que estava à cabeceira da minha cama e que corresse de par em par as cortinas franjadas de veludo preto que envolviam o leito. Quis que se fizesse tudo isto de modo a que me fosse possível, se não adormecesse, ter a alternativa de contemplar esses quadros e ler um pequeno volume que acháramos sobre a almofada e que os descrevia e criticava.Por muito, muito tempo estive a ler, e solene e devotamente os contemplei. Rápidas e magníficas, as horas voavam, e a meia-noite chegou. A posição do candelabro desagradava-me, e estendendo a mão com dificuldade para não perturbar o meu criado que dormia, coloquei-o de modo a que a luz incidisse mais em cheio sobre o livro. Mas o movimento produziu um efeito completamente inesperado. A luz das numerosas velas (pois eram muitas) incidia agora num recanto do quarto que até então estivera mergulhado em profunda obscuridade por uma das colunas da cama. E assim foi que pude ver, vivamente iluminado, um retrato que passava despercebido. Era o retrato de uma jovem que começava a ser mulher. Olhei precipitadamente para a pintura e ato contínuo fechei os olhos. A principio, eu próprio ignorava por que o fizera. Mas enquanto as minhas pálpebras assim permaneceram fechadas, revi em espírito a razão por que as fechara. Foi um movimento impulsivo para ganhar tempo para pensar - para me certificar que a vista não me enganava -, para acalmar e dominar a minha fantasia e conseguir uma observação mais calma e objetiva. Em poucos momentos voltei a contemplar fixamente a pintura. Que agora via certo, não podia nem queria duvidar, pois que a primeira incidência da luz das velas sobre a tela parecera dissipar a sonolenta letargia que se apoderara dos meus sentidos, colocando-me de novo na vida desperta. O retrato, disse-o já, era de uma jovem. Apenas se representavam a cabeça e os ombros, pintados à maneira daquilo que tecnicamente se designa por vinheta - muito no estilo das cabeças favoritas de Sully. Os braços, o peito, e inclusivamente as pontas dos cabelos radiosos, diluíam-se imperceptivelmente na vaga mas profunda sombra que constituía o fundo. A moldura era oval, ricamente doirada e filigranada em arabescos. Como obra de arte, nada podia ser mais admirável que o retrato em si. Mas não pode ter sido nem a execução da obra nem a beleza imortal do rosto o que tão subitamente e com tal veemência me comoveu. Tão-pouco é possível que a minha fantasia, sacudida da sua meia sonolência, tenha tomado aquela cabeça pela de uma pessoa viva. Compreendi imediatamente que as particularidades do desenho, do vinhetado e da moldura devem ter dissipado por completo uma tal idéia - devem ter evitado inclusivamente qualquer distração momentânea. Meditando profundamente nestes pontos, permaneci, talvez uma hora, meio deitado, meio reclinado, de olhar fito no retrato. Por fim, satisfeito por ter encontrado o verdadeiro segredo do seu efeito, deitei-me de costas na cama. Tinha encontrado o feitiço do quadro na sua expressão de absoluta semelhança com a vida, a qual, a princípio, me espantou e finalmente me subverteu e intimidou. Com profundo e reverente temor, voltei a colocar o candelabro na sua posição anterior. Posta assim fora da vista a causa da minha profunda agitação, esquadrinhei ansiosamente o livro que tratava daqueles quadros e das suas respectivas histórias. Procurando o número que designava o retrato oval, pude ler as vagas e singulares palavras que se seguem: «Era uma donzela de raríssima beleza e tão adorável quanto alegre. E maldita foi a hora em que viu, amou e casou com o pintor. Ele, apaixonado, estudioso, austero, tendo já na Arte a sua esposa. Ela, uma donzela de raríssima beleza e tão adorável quanto alegre, toda luz e sorrisos, e vivaz como uma jovem corça; amando e acarinhando a todas as coisas; apenas odiando a Arte que era a sua rival; temendo apenas a paleta e os pincéis e outros enfadonhos instrumentos que a privavam da presença do seu amado. Era pois coisa terrível para aquela senhora ouvir o pintor falar do seu desejo de retratar a sua jovem esposa. Mas ela era humilde e obediente e posou docilmente durante muitas semanas na sombria e alta câmara da torre, onde a luz apenas do alto incidia sobre a pálida tela. E o pintor apegou-se à sua obra que progredia hora após hora, dia após dia. E era um homem apaixonado, veemente e caprichoso, que se perdia em divagações, de modo que não via que a luz que tão sinistramente se derramava naquela torre solitária emurchecia a saúde e o ânimo da sua esposa, que se consumia aos olhos de todos menos aos dele. E ela continuava a sorrir, sorria sempre, sem um queixume, porque via que o pintor (que gozava de grande nomeada) tirava do seu trabalho um fervoroso e ardente prazer e se empenhava dia e noite em pintá-la, a ela que tanto o amava e que dia a dia mais desalentada e mais fraca ia ficando. E, verdade seja dita, aqueles que contemplaram o retrato falaram da sua semelhança com palavras ardentes, como de um poderosa maravilha, - prova não só do talento do pintor como do seu profundo amor por aquela que tão maravilhosamente pintara. Mas por fim, à medida que o trabalho se aproximava da sua conclusão, ninguém mais foi autorizado na torre, porque o pintor enlouquecera com o ardor do seu trabalho e raramente desviava os olhos da tela, mesmo para contemplar o rosto da esposa. E não via que as tintas que espalhava na tela eram tiradas das faces daquela que posava junto a ele. E quando haviam passado muitas semanas e pouco já restava por fazer, salvo uma pincelada na boca e um retoque nos olhos, o espírito da senhora vacilou como a chama de uma lanterna. Assente a pincelada e feito o retoque, por um momento o pintor ficou extasiado perante a obra que completara; mas de seguida, enquanto ainda a estava contemplando, começou a tremer e pôs-se muito pálido, e apavorado, gritando em voz alta 'Isto é na verdade a própria vida!', voltou-se de repente para contemplar a sua amada: - estava morta!»

Domingo, Maio 31, 2009

Versos Inscritos numa Taça Feita de um Crânio




Uma das minhas poesias preferidas do mestre Byron (que eu não lembro se já postei nesse blog rs - se postei vale a pena postar de novo rs).


Por Lord Byron


Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência -curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.

Domingo, Maio 17, 2009

A Fortuna Maldita



Por Linx


— Puta que pariu!
O grito ecoou por toda aquele velho quarto. Por mais que R. suspeitasse que houvesse realmente algo de valor dentro daquele casarão abandonado, não podia crer que era tanto. E menos ainda podia crer que havia conseguido achar.
Muito se falava a respeito da fortuna que o velho B. havia escondido em algum lugar do seu casarão, mas eram poucos os com coragem de entrar ali (diziam que a casa era amaldiçoada) e os intrépidos caçadores de tesouros que se arriscavam a entrar por mais que vasculhassem a casa toda, ninguém jamais havia encontrado uma pista, mas agora ele o encontrara, o baú, cheio de jóias e barras de ouro.
— Estou rico!
Ele gritava e coxeava pelo aposento com uma criança. Estava em êxtase.
— Deve ter uma fortuna aqui! Disse ele tirando um punhado das jóias do baú. tenho que tira-lo daqui
R. pegou em uma das argolas laterais do baú e se pôs a arrasta-lo para fora. Ninguém havia vindo com ele e como não pensava agora em dividir aquele ouro, acharia um jeito de leva-lo até sua caminhonete estacionada na frente do casarão, coloca-lo na caçamba e leva-lo até sua casa, onde de lá realizaria os tramiteis legais.
— O que é isso?
R. parou no meio do caminho e viu algo que lhe chamou a atenção; um livro velho, em cima de um móvel. Decidiu recolhe-lo antes de ir embora e pondo num dos seus bolsos
Apesar de sua perna direita não ajudar muito (uma pedra havia caído em cima dela a uns três anos - e ele esperava uma prótese até hoje), ele conseguiu quase levando seus músculos a estafe, colocar o ouro na caçamba de seu carro.
— Estou rico, estou rico! R. falava baixinho e ria sem parar. Adeus vida de pobre pé rapado.


— Senhor, seu uísque.
— Sim, agora volte pro seu trabalho
— Sim senhor. Disse ele abaixando a cabeça
— Ande lesma!


Haviam se passado cerca de um ano e agora R. não era mais aquela caçador de tesouros manco, mas sim um dos homens mais ricos de todo pais e famosos do pais.
Logo após sua descoberta a noticia logo se espalhou pela região e em pouco tempo pelo pais todo e suas extravagâncias logo começaram a virar capa de revistas e jornais.
Suas primeiras providencias foram corrigir algumas marcas que a vida havia lhe deixado, se submetendo por varias cirurgias plásticas. Além disso colocou próteses feitas do ouro que ele havia encontrado no seu fêmur e radio (radio que ele quebrou ao tentar tirar o baú de cima de seu carro), e trocou todos seus dentes já apodrecidos por próteses em ouro.
A casa onde ele achou o baú foi inteiramente reconstruída, passando por cima até mesmo do patrimônio nacional que havia tombado aquela casa, sendo acrescentada um grande garagem inclusive que ele encheu de carros importados.
Além de sua gastança desenfreada com essa casa, carros, jóias entre outros ele também era conhecido por armar escândalos; brigas embebedado, grandes orgias com atrizes do mundo pornográfico e rachas com seus carros – em um ou dois deles resultado em morte de pessoas inocentes – obviamente encobertas).
Seu temperamento que já era arrogante, se tornou insuportável e por isso ele vivia praticamente sozinho naquela mansão, a não ser pelos seus inúmeros empregados (muitas delas obrigadas a satisfazer seus desejos sórdidos).


— Já arrumou meu quarto e meu banho?
— O senhor já vai se deitar?
— E o que você tem haver com isso seu imbecil
— Nada senhor
— Então ande, arrume tudo lá sua lesma. Ou quer ser despedido?
— Não senhor. Já estou indo
— Vai suma. E rápido que quando eu chegar lá quero tudo pronto
— Sim senhor
— Cambada de inúteis!
R. se levantou com dificuldade e foi até seu aposento. Tentou ir o mais rápido possível, para tentar pegar tudo ainda por terminar, mas ao chegar nos seus aposentos seu empregado já lhe esperava com a porta aberta
— Pronto senhor. Mais alguma coisa?
— Não suma logo seu imbecil
— Sim senhor
O emprego então esperou R. entrar e fechou a porta, seguindo pelo corredor até seu quarto proferindo em voz baixa diversos palavrões. R. enquanto isso acabava de tomar seu banho e já estava indo se deitar.
Aquela noite estava quente e isso fez R. acordar no meio da noite, já sem sono. Ficou deitado um tempo, mas não conseguia pregar o olho. Decidiu fazer algo para passar o tempo e ver se o sono chegava. Ligou a televisão, mas nela nada parecia lhe interessar, desligando ela logo em seguida.
Deitou-se de lado e viu em cima de seu criado-mudo aquele velho livro que ele havia achado junto com sua fortuna.
Ele nunca havia se interessado em sequer abrir aquele livro depois de ter sua fortuna nas mãos, mas como aquela noite parecia não passar decidiu abri-lo e ver do que se tratava.
Lendo um pouco do conteúdo, viu que não se tratava de um livro, mas sim de um diário, o diário do velho B.
Nele o velho contava muitas historias e contava como havia feito sua fortuna, passando por cima de muitos a matando diversas pessoas. Quanto mais ele lia, mais ele via o porque de tanta gente temer aquela casa, pois a cada pagina a historia daquele velho senhor parecia piorar e ele parecia cada vez mais doentio.
Ao chegar na ultima pagina ele se deparou com um relato desesperado:
“Não agüento mais, isso já está ficando insuportável. Eles agora estão em todas as partes a toda hora. Vejo hoje que o que fiz foi algo imperdoável e que essa maldição nunca vai ter fim. Escrevo aqui e peço a pessoa que encontrar meus rabiscos que não façam uso nem sequer de um vintém de minha fortuna pois nela está contida a maldição que me condenou e que eu criei com meus infames atos covardes pelo qual adquire toda essas jóias e dobrões de ouro...”
A relato terminava ai, mas pela caligrafia no fim da frase. Podia-se presumir claramente que ele continuaria a escrever, mas não conseguiu.
— Velho caduco. Disse R. sorrindo. Já devia estar maluco esse porra.
R. ficou um tempo rindo sozinho, mas logo o sono veio e ele adormeceu


— O que?
R. acordou assustado com um barulho de porta rangendo. Ao abrir os olhos reparou que sua porta estava aberta e uma luz vinha do corredor. Tateou o chão em busca de seu chinelo e decidiu ver o que acontecia, pois ele tinha certeza que havia apagado todas as luzes e fechado a porta, já que seu sono só vinha com todas as luzes apagadas.
— Deve ter sido um daqueles empregados inúteis. Bando de idiotas!
Ao sair do seu quarto e olhar seu extenso corredor viu algo no fundo dele que parecia ser uma criança.
— Hei quem é você? Espere, volte!
A criança correu em direção a escada descendo ela rapidamente. R. a seguiu correndo o máximo que podia. Desceu as escadas rapidamente e viu a criança olhando para o lado de fora em frente a porta principal aberta. Ao ver que ele havia chegado ela aponta para fora. R. vai em sua direção temeroso e para ao seu lado.
— Meu Deus!
Por um breve momento seu corpo ficou paralisado e suas pernas tremeram. Do lado de fora de sua casa estavam depostos centenas de corpos de pessoas, todas aparentemente mutiladas, pois seus braços, pernas e vísceras estavam espalhados por todos os lugares.
— O que é isso?
— Foi seu ouro que fez. Disse a criança olhando para ele.
— Não! Não! Eu não fiz nada!
— Seu ouro nos matou...
Ao pronunciar essas palavras o pescoço da criança começou a se abrir e derramar uma imensa quantidade de sangue vermelho vivo
— Veja o que seu dinheiro fez. Disse ela com uma voz como de alguém que se afoga. Veja!
— Não!
— Esse dinheiro é maldito e te levara com ele ao inferno
— Não!
O grito acompanhou o brusco acordar dele.
— Foi só um sonho. Foi só um sonho. Deus que susto
Um sorriso amarelo brotou de seus lábios. Mas por mais que ele acreditasse que aquilo apenas tinha sido um sonho, fruto da leitura do relato apavorante do diário de B., no fundo sabia que havia algo de errado. Decidiu que não pensaria nisso aquele dia; precisava de uma massagem e um bom uísque só isso.
Tateou então o chão em busca de seu chinelo e o calçou antes de se levantar e ir até o banheiro tomar uma bom banho de hidromassagem.
Após seu longo banho, pôs um belo terno e segui de carro até uma casa de massagem. Pensou que podia passar o dia lá e só voltar pra sua casa para dormir, pois hoje aquela casa lhe parecia um tanto assustadora.
Por mais que tivesse num de seus lugares favoritos, cercado por mulheres lindas, aquele sonho lhe perturbava muito. Algo lhe dizia que aquilo tinha um fundo de realidade, mas não seria um sonho idiota que o faria desistir de sua boa vida; “se o velho fez a fortuna matando pessoas, o problema foi dele, eu só quero saber de curtir minha grana.”


— Senhor pode me dar um trocado? Disse um velho senhor cutucando o vidro de seu carro importado na frente de sua casa
— Não tenho e vai trabalhar seu vagabundo
— Não posso senhor, eu perdi uma perna
— E o que eu tenho a ver com isso seu vagabundo?
— Porque foi seu dinheiro que fez isso!
A fisionomia do senhor mudou de uma profunda tristeza para o profundo ódio, adquirindo um olhar extremamente diabólico
— Seu doente! Maluco! Sai daqui
— Eu quero o que me pertence!
— Filho de uma puta!
O carro de R. acelerou o mais rápido que podia até sua garagem. Fechou a porta desesperado e subiu ao hall correndo.
— Preciso de um uísque.
— Eu quero o que é meu!
— Não!
R. olhou para o lado e lá estava aquele senhor, mas agora acompanhado de outros vinte homens, todos sem pernas ou braços, sujos de terra e sangue, com farrapos rasgados. Na frente deles aquele menino de ontem.
— Você virou um sujeito arrogante e enriqueceu em cima de nossas vidas. Agora viemos buscar nosso ouro que você nos roubou
— Vocês são só um sonho! Não existem
— Me de o que me pertence!
Os homens quase que pularam de seus lugares em direção a R. que tentou fugir subindo as escadas. No fim dela quando ele se virou em direção ao corredor que dava ao seu quarto viu todos aqueles homens parados ali, um monte deles para cada lado. Eles avançaram em cima dele o cercando por todos os lados
— Nos dê o que ele roubou!
— Não... não!
Um deles enfiou a mão no antebraço de R. e abriu ele com suas unhas. R. gritou o mais alto que podia. Outros dois também levaram a mão aquele braço,competindo entre eles.
— Parem!
— Queremos o que é nosso!
Outros dois começaram a forçar a boca de R. até expô-la completamente e começaram e tentar rançar seus dentes com suas unhas. R. tentava se mexer, mas era contido por eles e por mais que tentasse gritar ou morder eles seguravam sua boca com muita força. Agora lagrimas já cobriam todo seus rosto e escorria muito sangue de sua boca.
— Ah!
O grito mal saiu; outros cinco tentavam abrir sua perna a mordidas e unhadas. Dilaceravam a carne, tentando expor aquele osso de ouro, o arrancando logo em seguida. Sua boca mal continha dentes, pois a maioria já havia sido arrancada.


— Senhor!
O mordomo deu um grito alto e apavorado ao ver seu patrão deitado no chão em cima de uma poça de sangue. Sua boca estava aberta e dela vazava uma enorme quantidade de sangue, assim como um de seus antebraços e pernas totalmente mutilados.
Após esse incidente a casa foi queimada em meio a um abaixo assinado da população local e o terreno coberto com sal. Até hoje ao se passar ali em frente pode-se ver aquele enorme terreno carbonizado e muitos afirmam que a noite ainda se ouvem gritos desesperados de dor.

Coleção de dedos


Era fim de tarde,o sol não aparecera o dia inteiro e agora uma chuva fina caia esfriando a cidade.As pessoas se acotovelavam nas ruas,lotavam os onibus,congestionavam o trânsito com seus carros,era a fuga de todo final de dia com cada um querendo chegar o mais depressa em sua casa.
Andavam como animais que pressentem os perigos da noite,se aglomeravam em busca de proteção.Perto da entrada para o metrô a confusão era ainda maior,a massa compacta de pessoas tentava descer as escadas sem se desgrudar,todos correndo,todos com receio de tudo.Em meio aos adultos cansados um grupo de crianças em idade escolar também seguia.Eram cinco,com suas mochilas coloridas cheias de personagens de desenho animado,seus rostinhos inocentes mostravam sorrisos não tão inocentes,todas entre 6 e 8 anos.
A chuva começou a piorar,agora eram gotas grossas e contínuas que caiam.A multidão farejava o predador,em meio ao ruido de buzinas,conversas e celulares um grito.Um mulher caiu de joelhos no meio da massa,segurava a mão que sangrava profusamente,dois homens pararam para ajuda-la e então se horrorizaram,onde antes haviam cinco belos dedos agora só restavam quatro.
A multidão se comprimiu mais,um homem gritou e se abaixou,ouviu-se uma risada infantil.O cheiro de sangue misturava-se ao de chuva,as pessoas olhavam ao redor procurando o agressor,o predador.
Mais um grito e outra pessoa abaixada,outro dedo decepado,as mochilas coloridas se movimentavam rápido e a massa agora corria assustada descendo as escadas em alta velocidade.Pessoas que caiam eram pisoteadas,outras eram chutadas e rolavam as escadas coalhadas de gente.As risadas infantis eram altas,mas não tão altas que não desse pra ouvir as sirenes e foi ai que tudo parou.
As mochilas sumiram na multidão,os policiais só encontraram vítimas...Mais tarde atrás de uma lixeira num beco qualquer as cinco crianças olhavam seus troféus.
A garotinha loira estendeu o belo dedo de mulher onde se via um anel ensanguentado.
- Eu peguei o mais bonito... - Ela dizia satisfeita.
Um garoto negro exibiu as mãos cheias de dedos decepados.
- Mas eu peguei mais que todo mundo... - Ele ria.
- Parem de rir e guardem nossos brinquedos,mamãe me bate se eu me atraso para o jantar... - Disse um garoto que parecia ser o lider tirando um tijolo da parede proxima e escondendo sua cota de dedos ali.Os outros o imitaram.
- Então está combinado...Amanhã vamos ao terminal de ônibus e vocês vão ver como é bem mais dificil cortar orelhas... - Falou uma garota oriental rindo.
Todos riram,um sorriso nem tão inocente...

Sexta-feira, Maio 01, 2009

Obsessão




Uma Poesia sombria do mestre Baudelaire

Grandes bosques, de vós, como das catedrais,
Sinto pavor; uivais como órgãos; e em meu peito,
Câmara ardente onde retumbam velhos ais,
De vossos De profundis ouço o eco perfeito.

Te odeio, oceano! Teus espasmos e tumultos,
Em si minha alma os tem; e este sorriso amargo
Do homem vencido, imerso em lágrimas e insultos,
Também os ouço quando o mar gargalha ao largo.

Me agradarias tanto, ó noite, sem estrelas
Cuja linguagem é por todos tão falada!
O que procuro é a escuridão, o nu, o nada!

Mas eis que as trevas afinal são como telas,
Onde, jorrando de meus olhos aos milhares,
Vejo a e olharem mortas faces familiares.

Quarta-feira, Abril 29, 2009

O jeito é matar


Ela sorriu e ele também.Era tão bonito,tudo era tão bonito...Aquela pequena padaria de esquina,a mesa verde de ferro fundido,as florezinhas azuis pintadas na xicara dela,a maneira que ela segurava a xicara,era quase...Poético...
Ele olhava totalmente absorvido nela,sabia que estava com cara de idiota mas naquele momento,sinceramente...Não lhe importava.
Ela queria o mundo e ele queria somente a ela.Ela era a flor,ele os espinhos.Queria estar em todos os lugares,a todo tempo,em todas as conversas,vendo-a,tocando-a,respirando o ar dela.E ela a suspirar,a passar as mãos pelos cabelos longos,aqueles aneis ruivos...Cor de sangue...De sangue.
Ele notou então que a queria demais...Se anulava por ela,se feria por ela,se dividia por ela e por ela sumia.Viu tarde demais que abandonara a faculdade,assim como seu emprego promissor,abandonara os amigos,a familia...Enfim tudo.Mergulhara nela e a deixara ser ele.Percebeu que as paredes de seu quarto eram forradas de fotos dela,percebeu no meio de suas roupas uma mecha do cabelo dela cortada sabe Deus quando...Tinha até um lencinho dela,meio manchadinho do sangue dela no dia que a xicara de florezinhas azuis quebrara...Quando fora isso?
Ela queria o mundo...Ele queria não querê-la mais...Mas agora era tarde,ela era a vida e só acabaria quando a vida deixasse de existir.Viu sua saída,sua luz no fim do túnel...Matá-la,sim matá-la,porque apenas matando-a ele voltaria a existir,ele poderia viver de novo de luto pelo amor,odiando o amor,desistindo do amor e sendo feliz.FELIZ!!
Em um acesso de alegria ele rasgou as fotos das paredes,queimou a mecha do cabelo dela,se jogou no chão em meio a confusão e riu...Riu a tarde toda.
Deu um jeito de copiar a chave da casa dela,tinha anotado em uma agenda toda a rotina dela,sabia de cada um de seus passos,cada um de seus horários...Foi simples seguir seu plano...
Ele entrou pelas 6:00 da tarde,na vizinhança ninguém o estranhou,estavam acostumados a vê-lo com ela.Acharam normal...
Dentro da casa ele ligou o som,colocou cd's que ambos gostavam,abriu as cortinas,arrumou o que ela deixara bagunçado,fez o capuccino que ela tanto tomava na padaria de esquina.Sentou no sofá e esperou...Ela que não chegava...Se atrasara 10 minutos...Não faria diferença...Morreria do mesmo jeito...
O mal foi a curiosidade...Nunca estivera no quarto dela...Queria tanto tanto....Tentou se conter e não pode,abriu a porta cor de creme e entrou.Quase morreu de infarto.
As paredes eram forradas com fotos dele,fotos do dia dele.Ele no banho,ele dormindo,ele estudando,ele tomando café na cozinha pequena do seu apartamento,ele tirando fotos dela,ele no carro,ele parado numa rua...Ele,ele,ele...
Ele olhava o quarto todo sem entender,parecia tão irreal...Olhou o chão e viu mais fotos,viu também as cartas que ele escrevia mas nunca mandava e que pensava ter jogado no lixo.Viu a letra miuda dela espalhada em suas fotos,dizia a mesma coisa "te amo".Cem,mil,um milhão de vezes repetida.Ele se apoiou na parede arfando...Aquilo era loucura...Loucura...Sentiu medo e desmaiou com uma pancada na cabeça.
Acordou preso a cama,ela estava ao seu lado,o rosto manchado de lágrimas,o cabelo em desordem.
- Você não podia ter visto...Eu tentei...Tentei que você não soubesse... - Ela dizia andando pelo quarto,arrancando as fotos e jogando no chão.Tirou do armário uma camisa dele e cheirou,beijou,passou-a pelo corpo. - É que eu te amo tanto tanto...Mas preciso viver entende?Por favor,você precisa entender!Eu não vivo mais!
Ela jogou a camisa no chão e começou a jogar alcool em tudo,estava insana,repetia que precisava viver.Ele compreendia e também chorava...Sabia o que iria acontecer...Ele mesmo planejara...Ele fora pego em sua propria armadilha...Não ia adiantar nada pedir e nem implorar por sua vida,ele sabia o que ela sentia,sabia que ela não iria parar...Porque ele também não pararia.
- Vai doer,mas vai passar...E ai estaremos livres...Ta?Eu te amo... - Ela sussurrou no ouvido dele e depois o beijou na boca.
Saiu do quarto jogando um fosforo aceso no chão,ela ainda viu as primeiras labaredas.Mas o inferno quem presenciou foi ele...Sentiu o fogo lhe consumir a carne,lhe arrancar a pele...Viu todo seu corpo se encher de bolhas,se sentiu sufocar pela fumaça.
Morreu em extrema agonia sabendo que agora ela queria o mundo...E ele não estaria lá para impedir...O amor não passava...O amor não passava...

" Isso não é amor, é uma perseguição...Você vai onde eu vou,até na contramão..." 2ois